Para ser bem sucedido como um Googler, um verdadeiro membro do time da Google, cada novo funcionário precisa trabalhar e pensar numa escala incrivelmente grande. A rede de data centers da empresa não está instalada somente em seu campus, mas espalhada por todo o mundo. Essa rede global é conhecida dentro da Google como “The Cloud”. Um grande desafio para os programadores é alavancar o poder dessa rede. A maioria dos novos programadores demora alguns meses para entender tal escala, que exige que as pessoas trabalhem sob um novo paradigma.
Percebendo a necessidade de aculturar novos funcionários para esse paradigma, Bisciglia, um engenheiro de software com pouco mais que vinte anos de idade, resolveu usar seus 20% de tempo livre para criar um curso de programação na escala “The Cloud”.
O projeto cresceu e, em outubro de 2007, foi fechada uma parceria com a IBM para conectar universidades de todo o mundo pelo estilo Google de trabalhar com “Cloud Computing”.Se esse projeto se expandir ainda mais, pode levar a Google para além da indústria da busca, da mídia e da propaganda, transformando o gigante na principal rede de computadores mundiais, com projetos em pesquisa científica e novos negócios.
Nem mesmo o CEO da Google, Eric Schmidt, esperava tanto: “Inicialmente, pensei que era um projeto educacional. Após nove meses, Bisciglia apresentou uma estratégia completamente inesperada, com a qual iríamos ‘entregar’ o estilo Google de computação para estudantes, pesquisadores e empreendedores”.
Reorganizando e universalizando a informação mundial
O que é a Google´s Cloud? Trata-se de uma rede composta por um milhão de servidores baratos, não muito mais poderosos do que os computadores que temos em casa. Esses servidores armazenam uma quantidade enorme de dados, incluindo diversas cópias da World Wide Web, o que torna nossas buscas muito mais rápidas. Diferentemente do que ocorre com os supercomputadores, a Google Cloud nunca envelhece. Quando algum pedaço da rede morre, é substituído por máquinas mais potentes.
Um direcionamento para a Cloud assinala uma mudança fundamental na maneira com que lidamos com informação. No nível mais básico, equivale à evolução da eletricidade, quando fazendas e negócios desligaram seus geradores e passaram a comprar energia. Os executivos da Google já possuíam essa visão e se prepararam para a mudança. A computação Cloud com tecnologia Google vai ao encontro da visão da empresa: “organizar a informação mundial e torná-la disponível universalmente”.
Para pequenos negócios e empreendedores, Cloud Computing significa a oportunidade de ter acesso ao processamento intensivo de dados. Até recentemente, apenas um seleto grupo de gigantes da Internet tinha acesso a esse tipo de tecnologia. Nós, os usuários comuns, geramos os dados (através de fotos, textos e buscas) e empresas como a Google, a Yahoo! e a Amazon transformam esses dados em insights, serviços e faturamento.
A situação está mudando. No ano passado, a Amazon começou a disponibilizar novos serviços através de sua própria rede de computadores. Algumas empresas apenas colocam sua base de dados nos computadores da Amazon. Outras usam os computadores da Amazon para fazer análises de dados e criar serviços na Web. Em novembro, foi a vez da Yahoo! abrir uma pequena Cloud para pesquisadores da Carnegie Mellon University. A Microsoft aprofundou seu relacionamento com comunidades científicas de pesquisadores ao ceder acesso à sua rede de computadores.
Para a Cloud alcançar seu potencial, ela deve ser uma rede tão fácil de programar quanto a Web. Um grande e novo mercado deve abrir-se no setor de buscas da Cloud, bem como em relação às ferramentas de software, negócios naturais para a Google e seus concorrentes.
Schmidt não revela quanto da capacidade total de sua rede de computadores estará disponível, quais serão as condições e qual será o preço cobrado. “Tipicamente, gostamos de começar de graça, e aqueles que quiserem explorar o total potencial deverão pagar a conta.” Essa estratégia mostra que a empresa está disposta a tornar-se a força dominante do próximo estágio da computação.
Da Universidade de Washington para o mundo
Mudar a natureza da computação e da pesquisa científica não era o objetivo de Bisciglia quando ele iniciou o projeto. Seu objetivo era voltar à escola. Diferentemente de muitos de seus colegas da Google, muitos deles doutores, Bisciglia foi recrutado logo após sua graduação na University of Washington. Ele buscava, então, uma pausa em sua rotina de dez horas diárias de construção de algoritmos de busca e um descanso dos longos percursos entre o seu pequeno apartamento e o seu cubículo na Google.
Para lançar o Google 101, curso introdutório ministrado em faculdades para ensinar programadores a trabalhar com Cloud Computing, Bisciglia teve que replicar toda a dinâmica e a mágica da Google Cloud, sem entrar na Cloud ou revelar seus segredos, que são justamente a plataforma do negócio Google. Depois desse primeiro desafio, a questão era como Bisciglia iria dar acesso para seus alunos a este poderoso sistema. A opção mais simples seria conectar os usuários diretamente aos computadores da Google. Mas a empresa não estava disposta a deixar alunos soltos nas máquinas que dão suporte a um negócio de US$ 10,6 bilhões. Bisciglia, então, adquiriu uma rede de 40 servidores e informou aos seus superiores que a fatura chegaria. Não houve retaliação e o projeto continuou.
Em novembro de 2006, os servidores chegaram. Com a ajuda de voluntários e colegas da Google, foi desenvolvido um programa de aulas pelo qual os alunos aprenderiam rapidamente.
Tão logo o curso sobre o Google 101 surgiu no currículo da universidade, os alunos correram para se inscrever. Em poucas semanas, os estudantes estavam aprendendo a configurar seu trabalho para as máquinas da Google e desenvolvendo ambiciosos projetos de Web. No começo de 2007, com a notícia do curso se espalhando para outras universidades, departamentos de ensino de todos os lugares começaram a pedir Google 101.
Com a quantidade de novas tecnologias para captura de informação, principalmente nas pesquisas científicas, o know-how de Cloud Computing tornou-se extremamente valioso e desejável. “Nós estamos nos afogando em dados”, desabafa Jeannette Wing, assistente da diretoria da Fundação Nacional de Ciências, dos Estados Unidos.
A grande questão passou a ser, então, a seguinte: “Como instalar mini-Google-clusters em cada departamento de ciências?” Para estender o projeto Google 101 para universidades de todo o mundo, Bisciglia, teria que conseguir uma Cloud maior. Foi aí que a sorte baixou no Googleplex. O chairman da IBM, Samuel Palmisano, chegou para discutir Cloud Computing com Schmidt, Bisciglia e outros Googlers. A idéia era estabelecer uma parceria entre a Google e a IBM para desenvolver mais a idéia de Cloud Computing.
O que havia começado como um projeto paralelo de um engenheiro da Google, agora era discutido entre os líderes de duas das maiores forças na indústria de tecnologia.
Novos modelos de negócios à vista
O projeto tornou-se trabalho em período integral para Bisciglia. O foco inicial eram algumas universidades dos Estados Unidos, para depois levar o projeto para outros cantos do planeta. Os poucos laboratórios que tiverem a capacidade de computação do Cloud Computing estarão em vantagem na hora de analisar quantidades enormes de dados. O chefe de pesquisas da Yahoo!, Prabhakar Raghavan, resumiu bem a situação: “Existem apenas cinco computadores no mundo: Google, Yahoo, Microsoft, IBM e Amazon. Poucos podem transformar eletricidade em poder de computação de maneira tão eficiente como esses cinco.”
Diversos modelos de negócios vão surgir dessa iniciativa. Tudo indica que o primeiro será o da energia limpa. Com data centers pagando uma conta de energia elétrica anual de US$ 20 milhões, a Google sabe que precisa inovar na questão energética.
Como serão os laboratórios que usarão o poder de computação das Clouds? Pesquisadores terão acesso a uma vasta quantidade de dados e ao poder de computação para analisá-los. Não será de se espantar, se o próximo ganhador do Prêmio Nobel tiver analisado dados coletados por outros cientistas.
Fonte: HSM Online
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